sábado, 25 de novembro de 2017

O Psicólogo Paul Bloom Utiliza Seu Livro "O Que Nos Faz Bons ou Maus" para Analisar a Moralidade Humana



Recentemente fui pai. Preocupado com a difícil tarefa de criar uma criança busquei ajuda na literatura. Quando digo que a tarefa é difícil, não me refiro apenas ao esgotamento físico embutido na paternidade, mas também ao suplício mental que é a pretensa tarefa de incubir valores morais na sua prole.

Sou um leitor comum. São raros os momentos que me aventuro ao academicismo de obras como A Metafísica da Moral de Immanul Kant ou chafurdo no acervo de David Hume

O psicólogo canadense Paul Bloom é mais minha praia. Bom escritor, eloquente, referências acadêmicas mescladas a citações da cultura pop moderna. É o cara. Seu livro O Que Nos Faz Bons ou Maus (2014, editora Best Seller, 307 páginas) é, portanto, recomendadíssimo a quem se interessar pelo estudo da moral e ética, mas não quer divagar em cabecismo existencial e, às vezes, prolixo.

Bloom é professor da renomada Universidade de Yale, nos EUA e é especializado em desenvolvimento infantil. Entre seus livros estão How Children Learn the Meanings of Words e Against Empathy: The Case for Rational Comparisson.

No prefácio, Bloom dá o tom que permeia ao longo de todo o livro:  
Como podemos compreender melhor nossas naturezas morais? Muitos concordam com Francis Collins que esta é uma questão teológica (...). Alguns preferem abordar a moralidade a partir de uma perspectiva filosófica, levando em consideração não o que as pessoas pensam e como elas agem, mas questões de ética normativa (grosso modo, como se deve agir) e de metaética (grosso modo, a natureza do bem e do mal). (...) Como psicólogo do desenvolvimento, estou interessado, primordialmente, em pesquisar a moralidade sob a ótica de suas origens em bebês e crianças pequenas.
Ao longo de enxutos 7 capítulos, Bloom se utiliza de princípios evolutivos, citações de autores clássicos, analogias com cinema e TV, e muitos estudos realizados com bebês - os quais aparentam ter capacidade de "fazer certos tipos de apreciações" entre o bem e o mal, sugerindo não que "a  moralidade esteja presente desde o nascimento", mas que talvez sejam "produtos da evolução biológica". Veja abaixo, um exemplo dos curiosos (e fofos) testes a que os bebês são submetidos:


No capítulo sobre empatia e compaixão há uma análise sobre psicopatas (indivíduos desprovidos dos dois traços) e a aterradora sugestão de que a psicopatia é mais alta em pessoas bem sucedidas do mundo dos negócios e política. Bloom não vê a empatia com bons olhos (ele tem um livro inteiro dedicado ao tema) e acha que "se colocar na pele de outro" nem sempre pode ser benéfico, uma vez que você pode ser indiferente àqueles com os quais não tem afinidade.

Acerca de equidade, status e punição: "Um erro no passado cometido contra nós, sem um pedido de desculpas ou uma reparação, é uma espécie de alegação. Ele atesta com efeito, que podemos ser tratados desta forma, e que tal tratamento é aceitável. Este é um dos objetivos do pedido de desculpas - restabelecer o status da vítima. (...) Sem um pedido de desculpas, eu poderia me sentir tentando a recuperar meu status através de retaliação."

No capítulo entitulado de "Os outros", Bloom conjectura a respeito do conceito de "fidelidade ao grupo" e o medo/aversão ao diferente estarem na origem do racismo. E mesmo pessoas corretas podem ter preconceitos inconscientes: "Psicólogos sociais descobriram que muitos participantes brancos de suas pesquisas, que não são preconceituosos, experimentam uma ansiedade opressora para não parecerem racistas ao interagir com pessoas negras".

Há um capítulo inteiro dedicado à aversão, sexualidade e seus tabus. No último capítulo, Bloom discute o altruísmo: "Como observou Aristóteles, um dos traços do indivíduos virtuosos é que eles aspiram transformar um bom comportamento racional em um hábito involuntário". Fica a dica.

Outro Item:

Bloom não escreveu um livro de auto ajuda, mas vale destacar algumas dicas para os pais:

  1. Matricular filhos em escolas multirraciais previne a criação de filhos racistas. Explicação: crianças convivendo de forma correta, expandem seu círculo moral, incluindo outras raças.
  2. Crianças mais expostas a histórias e viagens desenvolvem mais empatia e se identificam com pessoas de perspectivas diferentes das suas. Explicação: "a exposição a mundos que só podem ser vistos através dos olhos de um estrangeiro, explorador ou um historiador pode transformar uma norma inquestionável ('é assim que se faz') em uma observação explícita ('Isso é o que nossa tribo está fazendo agora')"
  3. Deixe claro que seus filhos não são crianças moralmente privilegiadas e lhes aplique exercícios de empatia. Ex.: "Ele está chateado porque estava orgulhoso da torre que construiu e você derrubou".

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

"A Magia da Realidade" de Richard Dawkins é a melhor aula de introdução ao mundo da ciência que seu filho (ou você) poderia ter

Linda edição da Cia das Letras para o maravilhoso livro do biólogo Richard Dawkins


Poucos presentes serão tão valiosos para seus filhos (ou para você mesmo) quanto o lindo livro A Magia da Realidade: Como Sabemos O que é Verdade do biólogo evolucionista britânico Richard Dawkins. O título remete à fascinação de Dawkins com as belezas do mundo e às evidências que temos disponíveis para explicar como funcionam. É uma ode de amor ao método científico.

Já no belíssimo capítulo de introdução ("Como Sabemos O Que é Realidade?), Dawkins deixa bem claro de qual lado está na briga entre mitos e ciência. Não se engane, leitor, Dawkins é ateu convicto e fervoroso defensor da ciência. Entre seus livros estão Deus, Um Delírio e O Relojoeiro Cego, manifestos que se utilizam de evidências científicas para combater mitos, superstições e o criacionismo (ideia da criação do mundo por um ser superior). Em Magia da Realidade ele pega mais leve. Na verdade, o amor pela ciência é mais evidente que o ódio pelos mitos. Muitos mitos ele apenas relata (com um toque de ironia, é claro). 


Relato de mitos na edição em inglês


O livro tem 10 capítulos, com títulos em forma de perguntas ("O que é o Sol?", "Por que coisas ruins acontecem?"). A estrutura básica do capítulo é citar lendas, mitos e superstições de diversas culturas que tentam dar resposta às perguntas, para depois confrontá-las com as respostas dadas pela ciência. 

A narrativa é leve e muito, mas muito didática. Em um capítulo entitulado "Como e quando tudo começou?", Dawkins utiliza a "ola" do estádio de futebol para explicar o efeito Doppler e como as ondas sonoras e ópticas se propagam. É fascinante perceber que poucas páginas após entender como o prisma decompõe a luz branca, você já está utilizando esse conhecimento para compreender algo tão complexo quanto a expansão do universo e o Big Bang.

O livro é lindamente ilustrados pelo designer britânico Dave Mckean, famoso por colaborar com ilustrações para obras de Neil Gaiman (Sandman, Orquídea Negra, Coraline). O diálogo das ilustrações com o texto é um prazer à parte. Em um capítulo que explica a gravidade, o texto é atraído por um corpo celeste; quando se explica a constituição vazia do o átomo, a página fica totalmente branca com apenas elétrons circulando um pequeno núcleo. Se a intenção era manter preso às páginas os atuais leitores com a atenção de uma mosca varejeira, acho que Dawkins/McKean conseguiram.

Watson, Crick e o método científico envolvido na descoberta do DNA (aqui na edição em inglês)
Outro Item:

No capítulo "Quem foi a primeira pessoa?", Dawkins utiliza uma máquina do tempo para viajar ao passado e nos ajudar a entender a evolução da espécie (especialidade do autor). Se isso fez você se lembar da série televisiva Cosmos apresentada pelo astrônomo Carl Sagan (e atualizada recentemente por seu admirador Neil deGrasse Tyson), pode ficar tranquilo que você está certo. Aliás, se você gostar do livro assista Cosmos; se gosta de Cosmos, leia A Magia da Realidade. Vai se divertir muito.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Você precisa ler P.G. Wodehouse

Edições em inglês da coleção de P.G.Wodehouse e sua maior criação: a dupla Wooster e Jeeves
Pesquisei no Google e constatei com tristeza: os livros de P. G. Wodehouse estão fora de catálogo no Brasil. Uns poucos e raros exemplares podem ser encontrados no Estante Virtual.

Mas afinal, quem é P. G. Wodehouse?

Pelham Grenvile Wodehouse  (pronuncia-se: Ood-Ráus) foi um prolífico escritor britânico de humor. Abandonado pelos pais aos dois anos de vida, Wodehouse viveu entre babás, tias, mordomo e amigos de colégio interno na infância. Foi bancário, prisioneiro dos nazistas e, no pós-guerra, mudou-se para os Estados Unidos, onde escreveu boa parte de sua obra.

Suas histórias sempre se passam em uma Inglaterra fantasiosa, inocente e idílica, onde os grandes problemas do mundo são tias malvadas, embaraços amorosos e jantares familiares. Não há engajamento político, debate social ou mesmo sexualidade (uma grande abdicação para um escritor de humor, como lembrou George Orwell). Como bem descreve o comediante Stephen Fry na introdução da coletânea What Ho! The Best of Wodehouse: "Camas para Wodehouse não são locais de amor e luxúria, são apenas um conveniente móvel para se esconder quando  se está sendo perseguido". 

Wodehouse criou dezenas de personagens memoráves, mas sem dúvida nenhuma sua grande criação é a dupla Bertie Wooster e Jeeves. O narrador Bertie é um aristocrata londrino cuja mais brilhante qualidade é entrar em enrascadas envolvendo amigos e mulheres. Jeeves é um mordomo fino, extremamente educado e intelectualizado que salva Bertie das encrencas utilizando seu conhecimento psicológico e literário enciclopédico.

O cuidado de Wodehouse com a linguagem é de ourives. As tramas são meticulosamente intrincadas e grande parte do humor vem de situações absurdas (o intelectual Jeeves tendo que acalmar um pato irritado, um introvertido amante se embebedando para "criar" coragem com a amada) e comparações ("ela parecia um tomate se esforçando para se expressar", "Ele se encolheu como uma lesma no sal"). Veja esse fragmento do Código dos Woosters, quando Bertie e seu amigo Gussie enfrentam o bully nazista Roderick Spode:
     'Spode!' Eu disse rispidamente, enquanto tive uma ideia que chacoalhou tudo. (...)
     
'Bem, o que você quer?'
      Eu ergui um sobrancelha ou duas.
     'O que eu quero? Essa é boa. Gostei. Já que você perguntou, Spode, o que eu quero é saber por que diabos você fica entrando no meu quarto privado, ocupando o espaço que eu uso para outros propósitos e me interrompendo quando estou batendo papo com amigos pessoais? Realmente, a gente tem tanta privacidade nessa casa quanto uma dançarina de strip-tease. Eu imagino que você tenha seu próprio quarto. Volte para ele, seu porcalhão gordo, e fique lá.'
     Eu não resisti olhar de relance para Gussie, para ver como ele estava absorvendo tudo isso, e foi um prazer notar em seu rosto um crescente olhar de admiração e adoração, tal qual uma dama da Idade Média olhando para um Cavaleiro armado derrubando um dragão. 
Wodehouse foi uma indicação de um dos meus heróis, o autor britânico Christopher Hitchens. Hitch era tão fã de Wodehouse que chegou a dizer que: "Agora que a edição da Penguin de Mating Season tem minha introdução e meu nome aparece na mesma página que P. G. Wodehouse, não tenho mais qualquer ambição literária".

Por tudo descrito acima te peço: compre no Estante Virtual, ou aprenda inglês e leia no original,  ou importe em português de Portugal... enfim. Dê um jeito. Mas leia Wodehouse.

Outro Item

Meus preferidos de Wodehouse:
  • Então Tá, Jeeves (Right Ho, Jeeves, 1934): meu livro predileto de Wodehouse. Tem o famoso discurso de Gussie Fink-Nottle bêbado na entrega de prêmios da escola, talvez a passagem de um livro que mais me fez rir na vida.
  • O Código dos Woosters (The Code of the Woosters, 1938): geralmente eleito como melhor livro de Wodehouse pelos fãs. Aqui Bertie tem que visitar Totleigh Towers, moradia de Sir Watkin Bassett, para tentar roubar uma tapeçaria para sua tia Dhalia. Essa sequência de Right Ho, Jeeves introduz o "ditador amador" Roderick Spode, líder do fictício grupo nazista britânico The Black Shorts ("porque quando foi formar sua associação já não havia camisas disponíveis").
  • What Ho! The Best of Wodehouse (2011): porta de entrada para a obra do Mestre. É uma coletânea de histórias curtas das principais personagens de Wodehouse: Jeeves e Wooster, Psmith, Tio Fred, Castelo Blanding, Ukridge e Família Mulliner.