Recentemente fui pai. Preocupado com a difícil tarefa de criar uma criança busquei ajuda na literatura. Quando digo que a tarefa é difícil, não me refiro apenas ao esgotamento físico embutido na paternidade, mas também ao suplício mental que é a pretensa tarefa de incubir valores morais na sua prole.
Sou um leitor comum. São raros os momentos que me aventuro ao academicismo de obras como A Metafísica da Moral de Immanul Kant ou chafurdo no acervo de David Hume.
O psicólogo canadense Paul Bloom é mais minha praia. Bom escritor, eloquente, referências acadêmicas mescladas a citações da cultura pop moderna. É o cara. Seu livro O Que Nos Faz Bons ou Maus (2014, editora Best Seller, 307 páginas) é, portanto, recomendadíssimo a quem se interessar pelo estudo da moral e ética, mas não quer divagar em cabecismo existencial e, às vezes, prolixo.
Bloom é professor da renomada Universidade de Yale, nos EUA e é especializado em desenvolvimento infantil. Entre seus livros estão How Children Learn the Meanings of Words e Against Empathy: The Case for Rational Comparisson.
No prefácio, Bloom dá o tom que permeia ao longo de todo o livro:
Como podemos compreender melhor nossas naturezas morais? Muitos concordam com Francis Collins que esta é uma questão teológica (...). Alguns preferem abordar a moralidade a partir de uma perspectiva filosófica, levando em consideração não o que as pessoas pensam e como elas agem, mas questões de ética normativa (grosso modo, como se deve agir) e de metaética (grosso modo, a natureza do bem e do mal). (...) Como psicólogo do desenvolvimento, estou interessado, primordialmente, em pesquisar a moralidade sob a ótica de suas origens em bebês e crianças pequenas.
Ao longo de enxutos 7 capítulos, Bloom se utiliza de princípios evolutivos, citações de autores clássicos, analogias com cinema e TV, e muitos estudos realizados com bebês - os quais aparentam ter capacidade de "fazer certos tipos de apreciações" entre o bem e o mal, sugerindo não que "a moralidade esteja presente desde o nascimento", mas que talvez sejam "produtos da evolução biológica". Veja abaixo, um exemplo dos curiosos (e fofos) testes a que os bebês são submetidos:
No capítulo sobre empatia e compaixão há uma análise sobre psicopatas (indivíduos desprovidos dos dois traços) e a aterradora sugestão de que a psicopatia é mais alta em pessoas bem sucedidas do mundo dos negócios e política. Bloom não vê a empatia com bons olhos (ele tem um livro inteiro dedicado ao tema) e acha que "se colocar na pele de outro" nem sempre pode ser benéfico, uma vez que você pode ser indiferente àqueles com os quais não tem afinidade.
Acerca de equidade, status e punição: "Um erro no passado cometido contra nós, sem um pedido de desculpas ou uma reparação, é uma espécie de alegação. Ele atesta com efeito, que podemos ser tratados desta forma, e que tal tratamento é aceitável. Este é um dos objetivos do pedido de desculpas - restabelecer o status da vítima. (...) Sem um pedido de desculpas, eu poderia me sentir tentando a recuperar meu status através de retaliação."
No capítulo entitulado de "Os outros", Bloom conjectura a respeito do conceito de "fidelidade ao grupo" e o medo/aversão ao diferente estarem na origem do racismo. E mesmo pessoas corretas podem ter preconceitos inconscientes: "Psicólogos sociais descobriram que muitos participantes brancos de suas pesquisas, que não são preconceituosos, experimentam uma ansiedade opressora para não parecerem racistas ao interagir com pessoas negras".
Há um capítulo inteiro dedicado à aversão, sexualidade e seus tabus. No último capítulo, Bloom discute o altruísmo: "Como observou Aristóteles, um dos traços do indivíduos virtuosos é que eles aspiram transformar um bom comportamento racional em um hábito involuntário". Fica a dica.
Outro Item:
Bloom não escreveu um livro de auto ajuda, mas vale destacar algumas dicas para os pais:
- Matricular filhos em escolas multirraciais previne a criação de filhos racistas. Explicação: crianças convivendo de forma correta, expandem seu círculo moral, incluindo outras raças.
- Crianças mais expostas a histórias e viagens desenvolvem mais empatia e se identificam com pessoas de perspectivas diferentes das suas. Explicação: "a exposição a mundos que só podem ser vistos através dos olhos de um estrangeiro, explorador ou um historiador pode transformar uma norma inquestionável ('é assim que se faz') em uma observação explícita ('Isso é o que nossa tribo está fazendo agora')"
- Deixe claro que seus filhos não são crianças moralmente privilegiadas e lhes aplique exercícios de empatia. Ex.: "Ele está chateado porque estava orgulhoso da torre que construiu e você derrubou".




