segunda-feira, 19 de março de 2018

"Meridiano de Sangue" de Cormac McCarthy é a Literatura em seu esplendor máximo

"Meridiano Sangrento, ou O Amanhecer Vermelho no Oeste" (1985) é a obra-prima do norte-americano Cormac McCarthy. O livro é a obra "mais forte e memorável já escrita por uma novelista americano vivo" segundo o maior crítico literário vivo Harold Bloom. Para Bloom nem mesmo Pynchon, DeLilo ou Philip Roth ultrapassam McCarthy. Lendo "Meridiano" conseguimos entender o porquê desse tom superlativo de Bloom.

O romance é ligeiramente baseado em um relato pessoal e em pinturas de Benjamin Chamberlain durante a guerra do México em meados do séculos 19. A trama segue 45 anos na vida de um personagem chamado apenas de "o garoto". A abertura do romance é linda:
"Eis o garoto. É magro e pálido, usa uma camisa de linho fina e rasgada. Põe lenha no fogo e cozinha (...) A mãe, falecida havia quatorze anos, incubou em seu próprio seio a criatura que a levaria embora. O pai jamais pronuncia o nome dela, o filho não sabe esse nome. Tem uma irmã no mundo, que nunca mais verá. Pálido e sujo, observa. Não sabe ler nem escrever e nele já brota o gosto pela violência irracional. Toda história presente naquele rosto, a criança o pai do homem".
 Após fugir de casa o garoto, entre percalços violentos diversos, termina sendo cooptado por Glanton e sua gangue, um grupo de mercenários contratados por governantes mexicanos e texanos para matar e escalpelar índios. 

As 320 páginas são divididas em 23 capítulos desafiadores. Há parágrafos longos, complexos, sem vírgulas, que exigem atenção redobrada. Confesso que só consegui ultrapassar as primeiras 20 páginas na terceira tentativa de leitura (Bloom teve o mesmo problema). Mas uma vez vencido esse obstáculo é difícil parar. 

A sensação é de se estar presenciando um pesadelo surreal e claustrofóbico imerso em sangue e urgência. Assim que entra em cena o magnético personagem do juiz Holden sua atenção é sugada para dentro do romance.

O juiz é uma criação literária que ultrapassa os limites do livro. Deliberadamente fazendo alusões ao Lúcifer de "Paraíso Perdido", ao Mefistófeles de "Fausto" e ao capitão Ahab de "Moby Dick", o juiz é a personificação do mal, um profeta do apocalipse. Muito de sua mística é decorrente de sua descrição no capítulo X, que narra a primeira aparição do juiz: nu, sozinho, no meio do deserto. Um "nascimento" compatível com sua estranheza. 

Fisicamente ele é um albino de mais de dois metros de altura, "careca feito pedra", sem qualquer sinal de barba, sobrancelhas ou cílios. Aterrorizantes feições infantis. Um polímata, versado em geologia, tiro, montaria, filosofia, dança, violino, línguas. Ele é um mensageiro do caos. 
"Esta é a natureza da guerra, cujo prêmio é ao mesmo tempo o jogo e a autoridade e a justificação. Vista dessa forma, a guerra é a mais legítima forma de adivinhação. É a verificação da vontade de um e da vontade de outro dentro daquela vontade maior que por prendê-los é obrigada a escolher entre os dois. A guerra é o jogo supremo porque a guerra é em última análise a violação da unidade da existência. A guerra é deus".
Atuando como uma espécie de líder espiritual e braço direito de Glanton, o juiz eclipsa todos os outros personagens, que em sua presença se sentem como o leitor: frágeis, hipnotizados, amedrontados. Soam menores até as duas outras personagens fascinantes de Meridiano: o garoto-"herói" e o sanguinário psicopata Glanton. Quando o juiz fala, ouvimos coisas como: 
"O homem acredita que os segredos do mundo nunca serão revelados vive no obscurantismo e no medo. A superstição o tragará. A chuva corroerá as proezas de sua vida. Mas o homem que impõe a si mesmo o dever de encontrar o início da sequência da trama por essa mera decisão estará tomando conta do mundo e só através desse domínio ele poderá ditar os termos de seu próprio destino".
 Soa profético, elegíaco e catequista. E é. A Bíblia é sem dúvida alguma a maior inspiração de "Meridiano", sendo o juiz um anticristo. Ao final do livro nos deparamos com um juiz que não envelheceu uma ruga sequer em todos os anos. Ele diz que nunca dorme e que nunca vai morrer. Ele é humano? Ele é imortal? Seu único antagonista, o garoto, sabe que o juiz está além de inícios ou fins: 
"Nem haveria um método para determinar suas origens (...) Qualquer ciência que pudesse invocar para aproximar-se da poeirenta substância primal trazida pelo vento há milênios não descobriria nenhum traço de um ovo atávico primitivo através do qual pudesse calcular seu princípio".
O próprio juiz Holden sugere uma batalha maniqueísta entre ele e o garoto: "Nossas animosidades já estavam criadas e esperando muito antes de nos conhecermos".

A princípio o garoto pode parecer o único personagem com poder de misericórdia no romance. Nas palavras do juiz ele é "o único que guardou em sua alma um pouco de clemência pelos gentios". Mas tal clemência, quando vista de perto, é voltada apenas para seus colegas do bando de assassinos. A compaixão para com criminosos é uma virtude? 

Não vou estragar o final para aqueles que ousarem se arriscar na leitura, mas o último capítulo é de uma estranheza metafísica sublime. Algo que faz empalidecer qualquer obra recente, mesmo do próprio McCarthy.

P.S.: o livro foi traduzido em 2009 por Cássio de Arantes Leite em edição da Alfaguara, mas atualmente está esgotado e fora de catálogo. 

quinta-feira, 1 de março de 2018

Em livro premiado, Jesmyn Ward insere Realismo Fantástico no Sul Profundo dos EUA



Este texto contém SPOILERS. 

"Sing, Unburied, Sing" da escritora norte-americana Jesmyn Ward foi um dos livros mais premiados de 2017. Entre outros, entrou na lista das 5 melhores ficções do New York Times e venceu o prestigioso National Book Awards - prêmio que a própria Ward já havia vencido em 2011 com "Salvage the Bones". Ainda sem edição no Brasil, os interessados devem ler no original em algum e-reader. 

O romance retrata uma problemática família negra do chamado Sul Profundo dos EUA. Incluindo Estados como Alabama, Mississippi e Georgia, essa região vive atormentada pelo passado atroz de escravidão e sua relação o conservadorismo branco local. 

Elogiado pela narrativa faulkneriana que dá voz a múltiplos narradores e pela utilização de elementos do Realismo Fantástico de Garcia Marquéz, o livro  não é para corações fracos.

Jojo é um sofrido adolescente negro, filho de uma mãe negligente e drogada, Leoni, e de um um pai branco relapso, Michael, que cumpre sentença de 3 anos por tráfico de drogas. As figuras paternas de Jojo e de sua irmã Kayla de 2 anos são os avós, 'Pop' Rivers e 'Mom' Philomene. Pop aparenta ter algum demônio passado, relacionado a um adolescente chamado Richie, com quem cumpriu pena na simbólica penitenciária de Parchman, no Mississipi. Mom, uma devota de religiões africanas, está morrendo de câncer.

Quando Michael é liberado da cadeia, Leoni resolve botar os filhos num carro, para dar um falso verniz de família, e atravessar o estado para recepcionar o marido. Com Leoni também segue viagem sua amigga Misty. Sua descrição de Misty é representativa da projeção social de Leoni (ou seria dos negros americanos como um todo?): "Suas sardas, seus lábios rosados e finos, seu cabelo loiro e a brancura leitosa resiliente de sua pele; quão fácil tem sido para ela, durante toda a vida, fazer do mundo um lugar amigável?"

No caminho, Leoni ela usa cocaína, deixa os filhos passarem fome e, quando Kaila adoece, se abstém de cuidar da filha. Esta road trip ocupa a primeira metade do livro e é carregada de simbolismos e situações que refletem o que a herança escravagista fez dos negros na sociedade americana atual. Uma blitz feita por um policial rodoviário racista é especialmente marcante. Narrada pela voz de Leoni, a sequência mostra a criança Jojo sendo exposta à vida do adulto negro nos EUA de hoje:
"É fácil esquecer o quão jovem é Jojo até vê-lo em pé ao lado do policial. É fácil olhar para ele, sua altura imponente, sua barriga proeminente, e pensar que ele já está crescido. Mas ele é apenas um bebê. E quando ele enfia a mão no bolso e o policial saca sua arma e aponta para seu rosto, Jojo não é nada além de uma criança com joelhos gordos e tortos. Eu deveria gritar, mão não posso".
Jojo que abre o romance dizendo que "gosta de pensar que sabe o que é a morte" e que teme que seu avô descubra que ele "não é velho o suficiente para encarar a morte como uma homem deve" é o personagem que mais gera empatia. De certa forma esse é um romance sobre a chegada da idade (coming of age, como dizem em inglês).

Na segunda parte do livro, ganha voz um terceiro narrador: o fantasma do adolescente Richie. O garoto, que teve um trágico destino, aparece em sua forma sobrenatural apenas para Jojo, a quem pede ajuda para reencontrar Pops. Se Jojo é assombrado por Richie, sua mãe não fica atrás. Leoni vive sendo atormentada pelo fantasma de Given, o irmão que foi assassinado pelo primo de seu marido. Descobriremos que os fantasmas são almas de pessoas mortas de forma violenta devido a preconceitos de raça e que cabe a eles "encontrar sua canção", ou seja, ter suas histórias contadas, para assim poderem encontrar a paz. 

Ward deixa a metáfora bem clara no título: os mortos devem cantar/contar suas histórias. Ward faz sua parte com o romance e conta a história dos negros. Dá-lhes a sua canção. Ela dá voz à eles enquanto relembra e lamenta o caminho árduo que os trouxe até aqui.

Por mais belo e bem escrito que seja, achei o livro cansativo. Além do fato que histórias sobre sofrimento podem ser extremamente desconfortáveis para nossa capacidade de ouvi-las, os fantasmas não me pareceram tão fáceis de assimilar, soando forçados na maior parte do tempo. A verdade é que esse me parece um livro mais necessário do que bom.