"Sing, Unburied, Sing" da escritora norte-americana Jesmyn Ward foi um dos livros mais premiados de 2017. Entre outros, entrou na lista das 5 melhores ficções do New York Times e venceu o prestigioso National Book Awards - prêmio que a própria Ward já havia vencido em 2011 com "Salvage the Bones". Ainda sem edição no Brasil, os interessados devem ler no original em algum e-reader.
O romance retrata uma problemática família negra do chamado Sul Profundo dos EUA. Incluindo Estados como Alabama, Mississippi e Georgia, essa região vive atormentada pelo passado atroz de escravidão e sua relação o conservadorismo branco local.
Elogiado pela narrativa faulkneriana que dá voz a múltiplos narradores e pela utilização de elementos do Realismo Fantástico de Garcia Marquéz, o livro não é para corações fracos.
Jojo é um sofrido adolescente negro, filho de uma mãe negligente e drogada, Leoni, e de um um pai branco relapso, Michael, que cumpre sentença de 3 anos por tráfico de drogas. As figuras paternas de Jojo e de sua irmã Kayla de 2 anos são os avós, 'Pop' Rivers e 'Mom' Philomene. Pop aparenta ter algum demônio passado, relacionado a um adolescente chamado Richie, com quem cumpriu pena na simbólica penitenciária de Parchman, no Mississipi. Mom, uma devota de religiões africanas, está morrendo de câncer.
Quando Michael é liberado da cadeia, Leoni resolve botar os filhos num carro, para dar um falso verniz de família, e atravessar o estado para recepcionar o marido. Com Leoni também segue viagem sua amigga Misty. Sua descrição de Misty é representativa da projeção social de Leoni (ou seria dos negros americanos como um todo?): "Suas sardas, seus lábios rosados e finos, seu cabelo loiro e a brancura leitosa resiliente de sua pele; quão fácil tem sido para ela, durante toda a vida, fazer do mundo um lugar amigável?"
No caminho, Leoni ela usa cocaína, deixa os filhos passarem fome e, quando Kaila adoece, se abstém de cuidar da filha. Esta road trip ocupa a primeira metade do livro e é carregada de simbolismos e situações que refletem o que a herança escravagista fez dos negros na sociedade americana atual. Uma blitz feita por um policial rodoviário racista é especialmente marcante. Narrada pela voz de Leoni, a sequência mostra a criança Jojo sendo exposta à vida do adulto negro nos EUA de hoje:
No caminho, Leoni ela usa cocaína, deixa os filhos passarem fome e, quando Kaila adoece, se abstém de cuidar da filha. Esta road trip ocupa a primeira metade do livro e é carregada de simbolismos e situações que refletem o que a herança escravagista fez dos negros na sociedade americana atual. Uma blitz feita por um policial rodoviário racista é especialmente marcante. Narrada pela voz de Leoni, a sequência mostra a criança Jojo sendo exposta à vida do adulto negro nos EUA de hoje:
"É fácil esquecer o quão jovem é Jojo até vê-lo em pé ao lado do policial. É fácil olhar para ele, sua altura imponente, sua barriga proeminente, e pensar que ele já está crescido. Mas ele é apenas um bebê. E quando ele enfia a mão no bolso e o policial saca sua arma e aponta para seu rosto, Jojo não é nada além de uma criança com joelhos gordos e tortos. Eu deveria gritar, mão não posso".Jojo que abre o romance dizendo que "gosta de pensar que sabe o que é a morte" e que teme que seu avô descubra que ele "não é velho o suficiente para encarar a morte como uma homem deve" é o personagem que mais gera empatia. De certa forma esse é um romance sobre a chegada da idade (coming of age, como dizem em inglês).
Na segunda parte do livro, ganha voz um terceiro narrador: o fantasma do adolescente Richie. O garoto, que teve um trágico destino, aparece em sua forma sobrenatural apenas para Jojo, a quem pede ajuda para reencontrar Pops. Se Jojo é assombrado por Richie, sua mãe não fica atrás. Leoni vive sendo atormentada pelo fantasma de Given, o irmão que foi assassinado pelo primo de seu marido. Descobriremos que os fantasmas são almas de pessoas mortas de forma violenta devido a preconceitos de raça e que cabe a eles "encontrar sua canção", ou seja, ter suas histórias contadas, para assim poderem encontrar a paz.
Ward deixa a metáfora bem clara no título: os mortos devem cantar/contar suas histórias. Ward faz sua parte com o romance e conta a história dos negros. Dá-lhes a sua canção. Ela dá voz à eles enquanto relembra e lamenta o caminho árduo que os trouxe até aqui.
Por mais belo e bem escrito que seja, achei o livro cansativo. Além do fato que histórias sobre sofrimento podem ser extremamente desconfortáveis para nossa capacidade de ouvi-las, os fantasmas não me pareceram tão fáceis de assimilar, soando forçados na maior parte do tempo. A verdade é que esse me parece um livro mais necessário do que bom.

Nenhum comentário:
Postar um comentário