| Angústia exasperante no fim do mundo |
Esses dias recomendei a um amigo "A Estrada" de Cormac McCarthy, que já havia lido em meados de 2007.
Por curiosidade peguei minha cópia e comecei a reler o primeiro parágrafo. Só fui parar na página 234, a final.
"Quando ele acordava na floresta no escuro e no frio da noite, estendia o braço para tocar a criança adormecida ao seu lado. Noites escuras para além da escuridão e cada um dos dias mais cinzentos do que o anterior. Como início de um glaucoma frio que apagava progressivamente o mundo".
Numa irrepreensível narrativa em terceira pessoa, o romance conta a história do homem e seu filho, inominados, "cada um o mundo inteiro do outro", vagando por um mundo pós-apocalíptico. Fugindo do frio, da fome, da violência canibal dos poucos homens restantes na face da Terra. Relegados à posição animais em um mundo devastado por uma tragédia não revelada, "todas as coisas retiradas de seu suporte".
Com medo e caos constantes, o homem escolhe viver como um fantasma por causa de seu filho. Escolhe sobreviver, quando a opção pela morte lhe traria a paz. Caminho, a muito trilhado por sua mulher - que aterroriza seu mundo cinzento com lembranças e sonhos coloridos. Mesmo cercado por carcaças humanas, um ar tóxico e um sol que nunca brilha, o homem ainda tenta proteger a criança das desgraças do mundo. Mantê-la inocente. "Tudo bem", ele diz.
A Estrada do título não é o pavimento que cruzam sem objetivo em direção ao Sul, mas a estrada simbólica para o fim do homem. O fim da esperança de que a criança possa ver um mundo melhor: "Ele não podia acender no coração da criança o que era cinzas no seu próprio".
A narrativa de McCarthy é épica. Faulkner, Melville e Bíblia se fundem em tautologias proféticas e descrições tão lindas que a tornam o sofrimento quase tátil: "Cascas incrédulas de homens cambaleando pelas estradas como migrantes numa terra febril. A fragilidade de todas as coisas finalmente revelada".
Gosto de pensar que o elíptico parágrafo final é feliz. McCarthy prefere citar o início das coisas "mais antigas que os homens" ao invés do seu final. Talvez ele esteja sugerindo que o fim é um novo começo: "Talvez na destruição do mundo fosse finalmente possível ver como ele fora feito (...). O grave anti-espetáculo das coisas deixando de existir".
"A Estrada" foi vencedor so prêmio Pulitzer 2007 para ficção e virou um filme apenas regular com Viggo Mortensen. Tem tradução belíssima de Adriana Lisboa para o selo Alfaguara da Companhia das Letras. É o melhor livro de introdução para o magnífico escritor que é Cormac McCarthy. Seu título mais famoso é "Onde Os Velhos Não Têm Vez", adaptados pelos irmãos Coen em um Oscarizado filme de 2007. Mas seu auge é "Meridiano Sangrento" (1985), um livro tão espetacular que valeria por si só sua inserção no cânone da literatura mundial. Post sobre ele em breve.
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