segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

"Reparação" de Ian McEwan discute a utilização da escrita como mecanismo de expiar pecados

"Reparação" (2001) de Ian McEwan: 7ª edição da Companhia das Letras
O texto seguintes pode conter SPOILERS.

No ótimo filme independente "Paranoid Park" de Gus Van Saint, um adolescente angustiado tenta lidar com a culpa de ter participado, sem querer, da morte de um segurança. Termina encontrando algum conforto moral ao escrever uma carta de confissão, na qual exorciza sua culpa. Em seguida, ele queima a carta.

No romance "Reparação", do britânico Ian McEwan, a expiação de culpa por um erro do passado também encontra refúgio na escrita. Nesse aspecto é um romance metalinguístico: a propria literatura é o personagem central.

Ian McEwan iniciou sua vida literária com romances e contos mórbidos que lidavam com incesto ("The Cement Garden"), sadomasoquismo ("The Comfort Strangers") e eutanásia ("Amsterdam", pelo qual ganhou o prestigioso Booker Prize em 1998). "Reparação" começa ensolarado.

No verão de 1935, na opulenta casa de campo da família Tallis, três personagens têm suas vidas drasticamente modificadas pelos acontecimentos daquele dia. O casal Cecilia e Rob, que elevam a relação patroa-empregado-amigos à condição de amantes, e a pretensa escritora Briony, de 13 anos.

Briony é o fio condutor de "Reparação". Dona de uma imaginação fértil, um ego inflado e um talento metódico para a escrita, ela é o alter-ego de McEwan, a quem ele usa para explicar a subjetividade dos escritores: "Cada vez que falava sobre a fraqueza de um personagem, inevitavelmente se expunha; era fatal que o leitor imaginasse estar ela descrevendo-se a si própria. De que outra maneira poderia ter descoberto aquilo?"

Traída por essa imaginação, por um amor platônico por Rob e por uma senso de justiça infantil, Briony termina por incriminar Rob por um crime que ele não cometeu, separando-o de sua irmã Cecília e selando um futuro sombrio para todos eles. 

A segunda parte do livro foca em Rob, agora um soldado e ex-detento, lidando com a retirada do Exército Britânico na praia de Dunkirk, na Segunda Guerra Mundial. O apego de Rob às lembranças com Cecília, "desbotadas por excesso de uso", são o contraponto à fiel descrição da Guerra.

A terceira parte segue Briony já adulta lidando com a culpa do erro do passado enquanto estuda enfermagem e tenta emplacar sua vida de escritora. 
A única solução concebível seria o passado não ter acontecido. Se Robbie voltasse... Briony ansiava pelo passado de outra pessoa, por ser outra pessoa.
A quarta e última parte do livro trás uma reunião da família Tallis já em 1999, onde uma Briony envelhecida e já escritora renomada tenta conciliar o passado e reparar os erros através da literatura em um metalinguístico parágrafo final.
Como pode um romancista realizar uma reparação se, com seu poder absoluto de decidir  como uma história termina, ele é também Deus? Não há ninguém, nenhuma entidade ou ser mais elevado, a que ela possa apelar, ou com que possa reconciliar-se, ou que possa perdoá-la. Não há fora dela. Na sua imaginação ela determina os limites e condições. Não há reparação possível para Deus nem para os romancistas, nem mesmo os romancistas ateus. Desde o início a tarefa é inviável, e era justamente essa a questão. A tentativa era tudo. 
Briony revela então qual foi sua tentiva foi escreverem um livro sobre Rob e Cecília:
Agrada-me pensar que não é por fraqueza nem por evasão, e sim como um gesto final de bondade, uma tomada de posição contra o esquecimento e o desespero, que deixo os jovens apaixonados viver e ficar juntos no final. Dei-lhes a felicidade, mas não fui egoísta a ponto de fazê-los me perdoar. 
Outro Item:
Seria impossível falar de "Reparação" sem citar a já famosa cena de amor na Biblioteca - belamente filmada na adaptação cinematografica com Keira Knightley. A beleza tátil da descrição beira o sobrenatural:
Ousados, deixaram que as pontas da línguas se tocassem, e foi então que ela emitiu um som débil, como um suspiro, o qual - ele se deu conta depois - assinalou uma transformação. Até então havia algo de ridículo em estar um rosto conhecido tão próximo do seu. Sentiam-se observados pelas próprias infâncias. Mas com o contato das línguas, daqueles músculos vivos e escorregadios, carne úmida tocando carne, e o som estranho que o contato provocou nela, tudo mudou. Aquele som pareceu penetrá-lo, percorrer seu corpo de alto a baixo, abrindo-o por inteiro, permitindo-lhe sair de si próprio e beijá-la livremente. O que antes era constrangimento agora era impessoal, quase abstrato. (...) Ele pronunciou as três palavras que nem toda arte barata e toda má-fé do mundo conseguem trivializar de todo. Ela as repetiu, com exatamente a mesma ênfase sutil no verbo, como se fosse a primeira pessoa a pronunciá-las na história. Ele não tinha crenças religiosas, porém era impossível não imaginar uma presença ou testemunha invisível ali, não acreditar que essas palavras pronunciadas em voz alta eram como assinaturas num contrato invisível.




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