sexta-feira, 13 de abril de 2018

"Cartas a um Joven Constestador" é a melhor forma de introdução à obra de Christopher Hitchens


Christopher Hitchens é um dos meus heróis, um dos meus escritores prediletos. Da vida. Nunca escreveu ficção por considerar lhe faltar "musicalidade". Sua obra se constitui de artigos, reviews e livros de não-ficção publicados ao longo da vida - o mais famoso deles sendo o polêmico best-seller "Deus Não É Grande - Como a Religião Envenena Tudo".

Falecido em 2015 devido a um câncer de esôfago, Hitchens podia gastar horas defendendo seus heróis (George Orwell, Thomas Jefferson, Thomas Paine) ou dias atacando seus desafetos; inimigos do quilate de Bill Clinton ("testa de ferro subserviente de todo tipo de interesses corporativos"), Henry Kissinger ("mentiroso, assassino, criminoso de guerra"), Madre Teresa de Calcutá ("amiga da pobreza e não dos pobres") e Deus ("totalitário", "déspota", "com eterna necessidade de adoração").

Apesar de herói, estou longe de concordar 100% com as opiniões de Hitchens. Sempre achei seu ateísmo tão proselitista quanto as religiões que ele criticava, sua defesa à Guerra do Iraque o fez perder muita gente melhor que eu, e ele odiava esportes - atividade que gosto muito. Mas o próprio Hitchens já dizia, "Importa como você pensa e não o que você pensa".

Difícil para um brasileiro acostumado à polarização e sectarismo político entender a importância de Hitchens. Livre-pensador, franco-atirador, dissidente são algumas definições possíveis, mas que ele próprio não aprovava. Um intelectual que estraçalhava a direita e a esquerda com mesmo fervor. Hitchens sempre foi aquele divergindo da maioria. Contestar é preciso.

"Cartas" é o melhor livro de introdução à sua obra. (Um caminho sem volta, caso você não seja o tipo de pessoa que busca aprovação para seu pré-definido alinhamento político). Pegando emprestado a forma epistolar de Rainer Maria Rilke e seu "Cartas a um Jovem Poeta", Hitchens utiliza 18 capítulos e curtas 129 páginas para "oferecer algum conselho aos jovens inquietos que queiram evitar a desilusão".

Seus amigos mais memoráveis, entre eles os renomados romancistas Ian McEwan, Salman Hushdie e Martin Amis, costumam dizer que Hitchens falava da mesma forma que escrevia, com coesão textual, lógica argumentativa e uma rapidez de pensamento sobrenatural. Hitchens era leitor voraz. Seus debates disponíveis no YouTube são viciantes e seu livro de memórias, "Hitch-22", é imperdível.

"Cartas" é Hitchens em sua essência. Eu não poderia recomendar mais. Aliás, posso sim. Recomendo a coletânea de artigos (em inglês) "Arguably", um catatau de quase mil páginas com o melhor de Hitchens.

Abaixo selecionei alguns fragmentos de "Cartas a um Jovem Contestador":

Sobre a necessidade de contestar
"A maioria das pessoas, na maior parte do tempo, prefere buscar aprovação ou segurança. Isso não deveria nos surpreender (esses desejos tampouco são desprezíveis em si mesmos). Entretanto, em todas as épocas há pessoas que se sentem, de alguma forma, à margem. E não é demais dizer que a humanidade deve muito a tais pessoas, quer reconheça a divida ou não".

"Com frequência, a determinação de um indivíduo é suficiente para desmotivar aqueles em que a coragem é produto do grupo".

Sobre o confronto de ideias
"Há algo de idiota naqueles que acreditam que o consenso é o maior bem".

"Decerto lhe foi ensinado que a verdade não reside em um pólo ou outro, mas em algum lugar no meio. (...) A verdade não pode mentir, mas se pudesse mentiria em algum ponto intermediário. Sobre questões graves não há meio-termo."

"Apenas o confronto de ideia e princípios é capaz de produzir algum esclarecimento"

Sobre debates
É muito raro que num debate entre dois protagonistas equivalentes algum deles obternha êxito em convencer ou 'converter' o outro. Porém, é igualmente raro que ao final os antagonistas terminem defendendo as mesmas posições".

Sobre religião
"Considere por um momento como o Céu se parece. Louvação e adoração sem fim, abnegação ilimitada e aviltamento do eu; uma Coréia do Norte Celestial".

"Algumas religiões prometem uma boa dose de prazer carnal e até a opção tentadora de assistir aos tormentos dos amaldiçoados. Tudo o que isso prova é que a religião é feita pelo homem e que os homens criaram deus à sua imagem e semelhança, e não o contrário".

O pensamento da maioria
"A busca de segurança na maioria não é sempre o mesmo que solidariedade; pode ser sinônimo de consenso, tirania e tribalismo".

A ironia
"A ironia é a glória do escravo. O comentário cortante e a nuance espirituosa são o consolo dos fracassados e a única coisa contra qual a pompa e o podem nada podem fazer" 

Conselhos (esse é para colocar numa moldura e pregar na sala)
"Não tenho uma peroração ou toque de clarim para encerrar. Cuidado com o irracional, por mais sedutor que seja. Evite transcendentes e todos os que convidarem a se subordinar e anular. Não confie na compaixão; prefira a dignidade para você e para os outros. Não tema ser considerado arrogante ou egoísta. Olhe todos os experts como se fossem mamíferos. Nunca seja um espectador da injustiça ou da estupidez. Procure o debate e as discussões por eles mesmos; o túmulo fornecerá muito tempo para o silêncio. Suspeite de seus próprios motivos e de todas as desculpas. Não viva para os outros, assim como você não espera que os outros vivam para você".

quarta-feira, 11 de abril de 2018

"Exit West" de Mohsin Hamid usa realismo fantástico para discutir o problema da imigração

"Exit West" ainda está inédito no Brasil; apele para o Kindle, caso se interesse. Vale a pena.
"Em uma cidade cheia de refugiados mas ainda em paz, ou pelo menos não abertamente em guerra, um jovem conhece uma jovem na sala de aula e não conversa com ela. Por muitos dias. O nome dele era Saeed e o dela Nadia".
Com essa linda introdução, o escritor paquistanês Mohsin Hamid abre seu romance Exit West (2017). Figurando em diversas listas de melhores do ano, como a do New York Times, e finalista do prestigioso Booker Prize, Exit West é um romance utópico ambicioso que discute um dos mais controversos temas da atualidade: a imigração.

Em uma cidade islâmica não nomeada Saeed começa um romance com a Nadia. Ele é conservador em seus hábitos; religioso, celibatário, desapegado de tecnologias e defensor da não agressão frente ao combate com o inimigo. Ela é independente, sexy, não desgruda do celular, experimenta maconha e cogumelos, partidária da defesa armada em tempos de guerra e usa um extenso robe preto, não para mostrar devoção ao Islã, mas para evitar assédios de "homens agressivos e policiais, e de homens agressivos que são policiais". 

Logo a vida dos dois será devastada pela guerra: "Em tempos violentos há sempre aquele primeiro conhecido ou pessoa íntima da gente, que, quando é atingido, faz com que aquilo que parecia um pesadelo, subitamente, torna-se visceralmente real".

A descrição da progressiva degradação social e privação de liberdades em tempos de guerra é didaticamente dolorosa: suspensão de passaportes, cortes de internet, toque de recolher, barricadas, desaparecimento de pessoas, funerais cada vez mais vazios. Até o ponto em que um jogo de futebol com uma cabeça humana no lugar da bola passa a ser algo prosaico.

Nesse contexto de dor, misteriosamente começa a surgir ao redor do mundo portas mágicas que conectam as mais diversas partes do globo. É através das portas que Saeed e Nadia migram da cidade anônima para os campos de imigração em Santorini e destes para uma Londres sitiada. São Francisco na Califórnia é o cenário do desfecho. Com o artifício "emprestado" dos livros infanto-juvenis das "Crônicas de Nárnia" de C.S. Lewis, essas portas acabam se transformando em um meio de fuga - real, para os personagens; e metafórico, para nós leitores.

Hamid está pouco interessado em explicar detalhes sobre o funcionamento das portas. O que lhe interessa é o que a imigração representa para o indivíduo e para o mundo:
"A porta não revelava o outro lado, e também não refletia o que estava desse lado, assim parecia tanto quanto um começo quanto o fim (...) As portas eram tanto como nascer e morrer. (...) Mas assim são as coisas quando se migra, nós excluímos de nossas vidas aqueles que ficam para trás".
Na utopia de Hamid, assim como o mundo se adaptou e permitiu (ao menos em teoria) a igualdade de direito entre outras minorias, a adaptação ao livre trânsito de pessoas seria apenas questão de tempo.: "o apocalipse parecia ter chegado e ainda assim não parecia apocalíptico, mesmo com as mudanças deixando as pessoas irritadas isso não eram o fim, e as vidas continuavam a seguir seu curso".

Na base dessa aceitação estaria o fato de que todos temos a mesma origem e o conceito de nativo não teria qualquer amparo étnico - como o norte-americano pode questionar um estrangeiro sendo ele estrangeiro em terras antes habitadas por nativos indígenas? Para Hamid, "todos somos migrantes no tempo" e se "todos somos estrangeiros, de certa forma, ninguém o é". 

O livro é lindo e tem uma linguagem simples, sem muitos floreios, mas cheia de lirismo. Achei que Hamid errou apenas em alguns pontos: 1) ele deixa muito evidente os artifícios batidos que utilizou para fazer conexão com todo tipo de leitor (há o personagem conservador, a rebelde, o que faz sacrifício familiar, etc); 2) na sua ambição em abordar algo grandioso e tornar a história global ele insere no romance fragmentos de histórias ao redor do mundo que são muito fracos quando comparados à história central (uma exceção é o fragmento sobre um relacionamento homossexual entre dois idosos em Amsterdã); 3) O romance entre o casal principal não decola muito (talvez por Nadia ser uma personagem muito mais interessante que Saeed).

Ainda assim a leitura vale muito a pena e o livro é altamente recomendado.