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| "Exit West" ainda está inédito no Brasil; apele para o Kindle, caso se interesse. Vale a pena. |
"Em uma cidade cheia de refugiados mas ainda em paz, ou pelo menos não abertamente em guerra, um jovem conhece uma jovem na sala de aula e não conversa com ela. Por muitos dias. O nome dele era Saeed e o dela Nadia".
Com essa linda introdução, o escritor paquistanês Mohsin Hamid abre seu romance Exit West (2017). Figurando em diversas listas de melhores do ano, como a do New York Times, e finalista do prestigioso Booker Prize, Exit West é um romance utópico ambicioso que discute um dos mais controversos temas da atualidade: a imigração.
Em uma cidade islâmica não nomeada Saeed começa um romance com a Nadia. Ele é conservador em seus hábitos; religioso, celibatário, desapegado de tecnologias e defensor da não agressão frente ao combate com o inimigo. Ela é independente, sexy, não desgruda do celular, experimenta maconha e cogumelos, partidária da defesa armada em tempos de guerra e usa um extenso robe preto, não para mostrar devoção ao Islã, mas para evitar assédios de "homens agressivos e policiais, e de homens agressivos que são policiais".
Logo a vida dos dois será devastada pela guerra: "Em tempos violentos há sempre aquele primeiro conhecido ou pessoa íntima da gente, que, quando é atingido, faz com que aquilo que parecia um pesadelo, subitamente, torna-se visceralmente real".
A descrição da progressiva degradação social e privação de liberdades em tempos de guerra é didaticamente dolorosa: suspensão de passaportes, cortes de internet, toque de recolher, barricadas, desaparecimento de pessoas, funerais cada vez mais vazios. Até o ponto em que um jogo de futebol com uma cabeça humana no lugar da bola passa a ser algo prosaico.
Nesse contexto de dor, misteriosamente começa a surgir ao redor do mundo portas mágicas que conectam as mais diversas partes do globo. É através das portas que Saeed e Nadia migram da cidade anônima para os campos de imigração em Santorini e destes para uma Londres sitiada. São Francisco na Califórnia é o cenário do desfecho. Com o artifício "emprestado" dos livros infanto-juvenis das "Crônicas de Nárnia" de C.S. Lewis, essas portas acabam se transformando em um meio de fuga - real, para os personagens; e metafórico, para nós leitores.
Hamid está pouco interessado em explicar detalhes sobre o funcionamento das portas. O que lhe interessa é o que a imigração representa para o indivíduo e para o mundo:
Na base dessa aceitação estaria o fato de que todos temos a mesma origem e o conceito de nativo não teria qualquer amparo étnico - como o norte-americano pode questionar um estrangeiro sendo ele estrangeiro em terras antes habitadas por nativos indígenas? Para Hamid, "todos somos migrantes no tempo" e se "todos somos estrangeiros, de certa forma, ninguém o é".
Logo a vida dos dois será devastada pela guerra: "Em tempos violentos há sempre aquele primeiro conhecido ou pessoa íntima da gente, que, quando é atingido, faz com que aquilo que parecia um pesadelo, subitamente, torna-se visceralmente real".
A descrição da progressiva degradação social e privação de liberdades em tempos de guerra é didaticamente dolorosa: suspensão de passaportes, cortes de internet, toque de recolher, barricadas, desaparecimento de pessoas, funerais cada vez mais vazios. Até o ponto em que um jogo de futebol com uma cabeça humana no lugar da bola passa a ser algo prosaico.
Nesse contexto de dor, misteriosamente começa a surgir ao redor do mundo portas mágicas que conectam as mais diversas partes do globo. É através das portas que Saeed e Nadia migram da cidade anônima para os campos de imigração em Santorini e destes para uma Londres sitiada. São Francisco na Califórnia é o cenário do desfecho. Com o artifício "emprestado" dos livros infanto-juvenis das "Crônicas de Nárnia" de C.S. Lewis, essas portas acabam se transformando em um meio de fuga - real, para os personagens; e metafórico, para nós leitores.
Hamid está pouco interessado em explicar detalhes sobre o funcionamento das portas. O que lhe interessa é o que a imigração representa para o indivíduo e para o mundo:
"A porta não revelava o outro lado, e também não refletia o que estava desse lado, assim parecia tanto quanto um começo quanto o fim (...) As portas eram tanto como nascer e morrer. (...) Mas assim são as coisas quando se migra, nós excluímos de nossas vidas aqueles que ficam para trás".Na utopia de Hamid, assim como o mundo se adaptou e permitiu (ao menos em teoria) a igualdade de direito entre outras minorias, a adaptação ao livre trânsito de pessoas seria apenas questão de tempo.: "o apocalipse parecia ter chegado e ainda assim não parecia apocalíptico, mesmo com as mudanças deixando as pessoas irritadas isso não eram o fim, e as vidas continuavam a seguir seu curso".
Na base dessa aceitação estaria o fato de que todos temos a mesma origem e o conceito de nativo não teria qualquer amparo étnico - como o norte-americano pode questionar um estrangeiro sendo ele estrangeiro em terras antes habitadas por nativos indígenas? Para Hamid, "todos somos migrantes no tempo" e se "todos somos estrangeiros, de certa forma, ninguém o é".
O livro é lindo e tem uma linguagem simples, sem muitos floreios, mas cheia de lirismo. Achei que Hamid errou apenas em alguns pontos: 1) ele deixa muito evidente os artifícios batidos que utilizou para fazer conexão com todo tipo de leitor (há o personagem conservador, a rebelde, o que faz sacrifício familiar, etc); 2) na sua ambição em abordar algo grandioso e tornar a história global ele insere no romance fragmentos de histórias ao redor do mundo que são muito fracos quando comparados à história central (uma exceção é o fragmento sobre um relacionamento homossexual entre dois idosos em Amsterdã); 3) O romance entre o casal principal não decola muito (talvez por Nadia ser uma personagem muito mais interessante que Saeed).
Ainda assim a leitura vale muito a pena e o livro é altamente recomendado.

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