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| Tradução de Beatriz Viégas-Faria para a L&PM Pocket |
Contexto: Macbeth é a última das tragédias mais importantes de Shakespeare. As outras sendo: Hamlet, Rei Lear e Otelo. Extremamente coesa, a peça é a mais curta das tragédias. Foi escrita em cinco atos provavelmente entre 1603 e 1607. Macbeth e Lady Macbeth continuam sendo alguns dos papéis-alvo de atores em busca de (a)provação técnica.
Comentário: Macbeth talvez seja o personagem mais violento e menos carismático criado por Shakespeare. Em seu reinado não são poupados homens, mulheres ou crianças. Banquo assimila assim a profecia das Bruxas:
“Muitas vezes, no intuito de conduzir-nos à destruição, os instrumentos de Satã contam-nos verdades, cativam-nos com insignificâncias claramente honestas, só para trair-nos em consequências as mais profundas”.
Os versos podem ser aplicados a Macbeth, um genocida que define seu destino a fórceps, ou melhor, a adagas sangrentas. Seu reinado lhe cai como roupas novas que “aderem ao corpo não por causa do molde, mas em função do uso”. O contraste com Banquo, que ao ouvir a profecia deseja apenas “não perder a honra ao tentar aumentá-la”, faz de Macbeth o herói-vilão da imaginação, segundo o crítico Harold Bloom. Uma imaginação fantasiosa tão potente que pensa, julga e sente por Macbeth.
Bloom ainda coloca Macbeth como um ancestral literário do capitão Ahab de Moby Dick: “a batalha de Macbeth contra sua sensação de ter sido traído pelo sobrenatural trás uma desordem cataclísmica, para ele e todos ao seu redor”.
Ao ser informado da morte da atormentada Lady Macbeth (em aparente suicídio), Macbeth declama seu mais famoso e dilacerante diálogo:
“Ela teria de morrer, mais cedo ou mais tarde. Morta. Mais tarde haveria um tempo para essa palavra. Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia até a última sílaba dos registros dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar aos tolos para o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco – faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”.
Ao se ver enganado por sua fantasia, Macbeth é o ator que “se pavoneia e se aflige sobre o palco” que ao final declara “começo a me sentir cansado deste sol, e gostaria que estivesse agora desfeito o estado das coisas”.
Outro Item:
- As três adaptações mais famosas para o cinema são as feitas por Orson Welles (produção sombria de baixo orçamento), Roman Polanski (filmado pouco após a morte da esposa pela gangue de Charles Mason) e Akira Kurosawa (o magistral Trono Manchado de Sangue).
- O famoso solilóquio de Macbeth citado acima é utilizado no título de um dos livros mais importantes do século XX, O Som e a Fúria, de William Faulkner.
- Um favorito pessoal é a citação a Lady Macbeth que o autor britânico P.G. Wodehouse faz no sensacional The Code of the Woosters, um dos livros mais engraçados que já li na vida.

