terça-feira, 29 de agosto de 2017

Macbeth, o mais violento Shakespeare

Tradução de Beatriz Viégas-Faria para a L&PM Pocket
Sinopse: Macbeth e Banquo são generais do exército escocês. Ao regressarem vitoriosos da guerra, três bruxas lhes cruzam o caminho e profetizam: Macbeth será rei; Banquo não será rei, mas seu filhos serão. Dominado por ambição descomunal e tentando impor o destino à força, Macbeth decide matar o rei Duncan e qualquer outro ser interposto entre ele o trono escocês.

ContextoMacbeth é a última das tragédias mais importantes de Shakespeare. As outras sendo: HamletRei Lear e Otelo. Extremamente coesa, a peça é a mais curta das tragédias. Foi escrita em cinco atos provavelmente entre 1603 e 1607. Macbeth e Lady Macbeth continuam sendo alguns dos papéis-alvo de atores em busca de (a)provação técnica.

Comentário: Macbeth talvez  seja o personagem mais violento e menos carismático criado por Shakespeare. Em seu reinado não são poupados homens, mulheres ou crianças. Banquo assimila assim a profecia das Bruxas: 

  Muitas vezes, no intuito de conduzir-nos à destruição, os instrumentos de Satã contam-nos verdades, cativam-nos com insignificâncias claramente honestas, só para trair-nos em consequências as mais profundas”.

Os versos podem ser aplicados a Macbeth, um genocida que define seu destino a fórceps, ou melhor, a adagas sangrentas. Seu reinado lhe cai como roupas novas que “aderem ao corpo não por causa do molde, mas em função do uso”. O contraste com Banquo, que ao ouvir a profecia deseja apenas “não perder a honra ao tentar aumentá-la”, faz de Macbeth o herói-vilão da imaginação, segundo o crítico Harold Bloom. Uma imaginação fantasiosa tão potente que pensa, julga e sente por Macbeth. 

Bloom ainda coloca Macbeth como um ancestral literário do capitão Ahab de Moby Dick“a batalha de Macbeth contra sua sensação de ter sido traído pelo sobrenatural trás uma desordem cataclísmica, para ele e todos ao seu redor”

Ao ser informado da morte da atormentada Lady Macbeth (em aparente suicídio), Macbeth declama seu mais famoso e dilacerante diálogo: 

  “Ela teria de morrer, mais cedo ou mais tarde. Morta. Mais tarde haveria um tempo para essa palavra. Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia até a última sílaba dos registros dos tempos. E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar aos tolos para o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve! A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco – faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”. 

Ao se ver enganado por sua fantasia, Macbeth é o ator que “se pavoneia e se aflige sobre o palco” que ao final declara “começo a me sentir cansado deste sol, e gostaria que estivesse agora desfeito o estado das coisas”.

Outro Item

  • As três adaptações mais famosas para o cinema são as feitas por Orson Welles (produção sombria de baixo orçamento), Roman Polanski (filmado pouco após a morte da esposa pela gangue de Charles Mason) e Akira Kurosawa (o magistral Trono Manchado de Sangue).
  • O  famoso solilóquio de Macbeth citado acima é utilizado no título de um dos livros mais importantes do século XX, O Som e a Fúria, de William Faulkner. 
  • Um favorito pessoal é a citação a Lady Macbeth que o autor britânico P.G. Wodehouse faz no sensacional The Code of the Woosters, um dos livros mais engraçados que já li na vida.

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